sábado, 17 de maio de 2008

Caro amor que nunca veio.


É com óbvia tristeza que faço aqui o meu registro. O sol nasceu. A claridade iluminou árvores e pássaros, pedras e animais. O vento soprou medianamente. Ouvi vozes. Horas depois, escureceu, as vozes cessaram. Mas o amor não veio.

A janela continua aberta. As venezianas limpas, como que pelo esforço de aparentar ordem. O quarto está calado. A cama colorida não se atreve a me animar. O espelho não ousa refletir. E, no entanto, eu preciso fazer barulho. Portanto preencho essa folha, fazendo um inútil protesto ao branco.

Cada segundo denuncia a ausência de um destinatário! Cada segundo empunha uma bandeira de não-virá! Ainda assim, não existem mais segundos, porque não há mais vento. Só uma brisa empurra o tempo e mostra o quanto estamos parados. Não posso reclamar da ausência de promessas. Nunca me prometeram promessas.

Onde está o prenúncio de dias mais preenchidos? Foi-se. Ou nunca veio também. Dar as caras é raro no meu universo. Se um quarto não fosse um quarto, e sim a metade, estaria mais satisfeita. Um quarto nunca é suficiente.

Pois cesso. Finjo que nunca estiveste aqui, amor. Pretendo não ver-te, na esperança de ter ao menos uma expectativa atingida. E sei, sei que não veio. Sei até o motivo: não sabia, não é? É tão notória a ignorância da sua existência. Mas é você mesmo que se anula, não existindo no outro! É você, amor, que zera o placar! Não vem e não sente, não vê e não se aborrece, não se preocupa, não se substitui, não permite, não existe!
Acabou, portanto, mais um dia, mais uma noite. E, você, amor, não veio.

* Enquanto não termino de escrever mais um post aos moldes do "Aos Vinte e Dois", contentem-se com esse texto aí, escrito não sei quando, só para o blog não ficar tão estático quanto o meu pensamento.

domingo, 4 de maio de 2008

Pensamento estático


Trent Reznor ajuda a pensar.
"E quando o dia chegar,
eu me tornarei o céu.
E eu me tornarei o mar.
E o mar virá me beijar.
Pois eu estou indo pra Casa.
Nada pode me deter agora."


Acredito que algum benefício resulte do pensamento estático. Do parar para pensar. Pensar, estando parado. Sem movimentos. Sem ruídos. Só o som dos pensamentos ecoando na caixa encefálica. O ruído das minhoquinhas do cérebro muito empolgadas num papo-cabeça.

Por algum tempo achei romântico evitar pensamentos. Li algumas frases soltas de autores mais soltos ainda sobre os malefícios da influência do raciocínio detido sobre atitudes importantes. É que a razão podia censurar as paixões. Havia a lenda do “se pensar bastante, não faz nada.”

Mas, all of a sudden, nem parece tão ruim não fazer nada. Ou melhor: escolher de forma mais demorada o que se faz. A diminuição das ações não poderá limitar a vida. Porque ser moça de vinte e dois anos é ter uma fileira de “i”s, só esperando pingos. E esses pingos, em particular, não caem do céu. São postos duramente, sacudidos depois de uma grande tempestade de pensamentos e vivências.

Imagino que os “i”s aguardam ansiosamente por seus devidos pingos. Se a pessoa nunca pára pra pensar, deve acumular um verdadeiro exército de “i”s aflitos, à beira do motim.

Pois eu cultivo os pensamentos. E quando não o faço antes de uma atitude, tenho a impressão de que o acúmulo é ainda maior: de arrependimentos. Claro que ter a ambos (pensamentos e arrependimentos) também é viver, mesmo tendo idade de moça. Escrevo “mesmo”, porque imagino que a palavra “moça” agrega à personalidade uma certa garota ingênua, admirando a vida pela janela. Mas sempre chego à conclusão de que há muitos “mesmos” em ser moça. Eu quero tirar as aspas deles.
* Neste post, o link é para o youtube... Minha conexão é de lascar.